Belo Horizonte, 4 de setembro de 2010
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Leishmaniose pode ser tratada

Coleira repelente trocada a cada quatro meses, inseticida aplicado mensalmente, levonizol (antihelmíntico) e vitamina C, duas vezes ao dia, e alopurinol para o resto da vida. Esse arsenal de cuidados faz parte da rotina de Elizabeth, uma mestiça de schnauzer e fox terrier de 4 anos, desde setembro de 2005, quando ela teve diagnóstico positivo para leishmaniose. «O começo foi difícil, porque ela tinha emagrecido muito, perdido pêlo, se coçava com freqüência e a unha tinha caído. A doença estava muito aguda», recorda a designer Joana Camilo Rajão Costa, 26 anos, que confessa ter perdido a esperança em alguns momentos.
Depois de cinco meses de tratamento, a cadela «renasceu». As despesas agora ficam em R$ 90 por mês. Joana comenta que sofreu muito com a falta de informação dos vizinhos que queriam retirar a cachorrinha do prédio a qualquer custo, inclusive com ação judicial, que ainda tramita. «Minha expectativa é a de que possamos continuar mantendo a Elizabeth controlada».
O mestre em Medicina Veterinária Preventiva pela UFMG, Vitor Márcio Ribeiro, ressalta que o proprietário não é obrigado a entregar o animal contaminado para o sacrifício, embora a medida de controle apregoada pelo Ministério da Saúde seja a eutanásia. «A pessoa tem o direito, como cidadão, de tratar o animal. Temos protocolos bem documentados na história científica que permitem o tratamento. Os veterinários não fazem sugestão à saúde pública, mas orientam seus clientes». Ele afirma que o sacrifício canino só é legalmente obrigatório quando a saúde do animal está depauperada pela leishmaniose.
O diagnóstico do mal, controle de vetores, tratamento dos cães e a vacina serão discutidos nos dias 16 e 17 de julho, durante o 4º Simpósio Internacional de Leishmaniose Visceral Canina, que acontece no auditório da Emater. «Temos amadurecido as discussões dos procedimentos feitos na rotina», afirma Vitor Márcio, que coordena o evento.
Em BH, a Secretaria Municipal de Saúde segue a recomendação do Ministério da Saúde e não trata o animal infectado, por acreditar que, mesmo em tratamento, ele pode transmitir o protozoário leishmania. No entanto, a Poder Judiciário de Minas Gerais tem concedido tutela antecipada para permitir o tratamento de leishmaniose, enquanto ações de execução fiscal para cobranças de multa foram julgadas improcedentes. A defesa é baseada em perícia e tem como instrumento exames específicos.
O sacrifício sumário de cães infectados é justificado por um decreto de 1963, que previa o extermínio da leishmaniose como endemia rural naquela década. Neste ano, até o dia 4 de julho, dos 7.012 animais inspecionados por equipes da Zoonose da PBH, o exame de 6.980 foram positivo para a enfermidade. Desse total, 4.976 foram sacrificados. Também neste ano, 21.233 residências foram vistoriadas, 38 pessoas foram infectadas com a doença e três morreram. A borrifação é programada anualmente, de acordo com as áreas de prioridade. As pessoas podem pedir vistorias por meio das regionais e pelos telefones 3277-7722 ou 156.

Animais bem vigiados

Emagrecimento crônico, por um período de três a quatro semanas, apatia, queda de pêlo, caspa, descamação e feridas na pele (comuns no focinho, orelha, cauda e patas), crescimento exagerado da unha são sinais clínicos que, associados ao teste sorológico (exame de sangue), podem comprovar leishmaniose. Caso necessário, o veterinário pode solicitar exames mais sofisticados, como biópsia ou raspado das lesões para confirmar o diagnóstico.
A associação dos medicamentos anfotericina B com o alopurinol tem sido utilizada no tratamento da leishmaniose e estudos mostram a cura clínica da doença. No entanto, ressalta o professor de Clínica Veterinária de Pequenos Animais da Escola de Veterinária da UFMG, Júlio César Cambraia Veado, não assegura o extermínio de forma integral do parasita em todos os animais.
Ele afirma que outras estratégias de controle devem ser seguidas, como o uso de coleira repelente, evitar a exposição do animal a ambientes em horários críticos (amanhecer e crepúsculo) para a presença do flebotomíneo. Além disso, é importante fazer dedetização nos imóveis e exames periódicos para a observação da possibilidade desse animal ser transmissor. Júlio Cambraia ressalta que os cachorros em tratamento devem ser muito bem vigiados. O veterinário Vitor Márcio afirma que a cura parasitológica não é esperada, mas a infectividade do cão é controlada por meio dessas medidas.
Cambraia afirma que não existe um tratamento padrão no Brasil, porque a legislação em vigor não o discute para os cães. Ele observa que, na Europa, onde os cachorros infectados são tratados de forma corriqueira, utiliza-se a substância chamada glucantine, a mesma empregada no país para tratamento humano. «Como no Brasil essa substância só é fabricada por um laboratório, e o Governo compra toda a produção para tratar o homem, ela não é utilizada em animais».
A vacina Leishmune tem sido uma aposta, aliada a medidas de controle, para prevenir a leishmaniose. De acordo com a veterinária e doutora em Virologia Ingrid Menz, gerente técnica da fabricante Fort Dodge, a proteção chega a 98% se aplicada em cães saudáveis e soronegativos. Desde seu lançamento, há três anos, a vacina foi aplicada em aproximadamente 60 mil cães.

Desafio
A confiabilidade do exame sorológico para a leishmaniose é ainda um desafio para a área veterinária, já que o teste pode gerar um resultado falso positivo em animais imunizados. Isso porque o exame detecta a presença de anticorpos, mas não se sabe se foram causados pela doença ou pela vacina. Com isso, afirma Ingrid Menz, o resultado pode ser positivo, mas o animal pode não estar infectado. No entanto, o Ministério da Agricultura já está avaliando estudos de kits de diagnóstico para serem utilizados com mais eficácia. A expectativa é que eles cheguem ao mercado ainda neste ano.

LEISHMANIOSE
Medidas preventivas

_ Coleira repelente, que deve ser trocada a cada quatro meses
_ Inseticida aplicado mensalmente no pêlo do animal
_ Vacina, que deve ser iniciada a partir dos quatro meses de idade e consiste na aplicação de três doses com intervalo de 21 dias. A revacinação deve ser feita um ano após a primeira dose e repetida anualmente
_ Posse responsável e controle da natalidade canina
_ Medidas de saneamento básico para ajudar a combater os mosquitos
_ Evitar acúmulo de lixo e entulho
_ Evitar exposição ao vetor nos horários em que o flebotomíneo atua - ao amanhecer e no crepúsculo


Ciclo da leishmaniose visceral

A leishmaniose é transmitida ao cão pela picada de um inseto flebotomíneo (mosquito palha, birigüi ou cangalhinha) infectado com o protozoário leishmania.

Diferentemente de outros mosquitos, o birigüi não necessita de água parada para o desenvolvimento de suas formas larvárias, dificultando o seu controle e, conseqüentemente, favorecendo a transmissão da doença.

Após a picada, o protozoário atinge a circulação sangüínea do cão e invade as células, iniciando sua replicação.

A partir do momento em que o cão possui a leishmania em sua corrente sangüínea, passa a ser fonte de infecção para os mosquitos que, por sua vez, podem contaminar outros cães e os seres humanos.

Luciana Neves

Fonte: Forte Dodge Saúde Animal/Hoje em Dia Online

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